Mostrando postagens com marcador Mitologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mitologia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

AS ENTRANHAS VERDEJANTES DA MEDICINA



RESUMO: Os autores apresentam reflexões sobre a cor verde e sua relação com a medicina. São abordados vários comentários para escolha desta cor como símbolo da medicina: das origens mitológicas, onde alude o mito de Perséfone, as aventuras amorosas de Apolo, e a Asclépio o deus da medicina. Menciona os aspectos psicológicos que as cores pode ter sobre médicos e pacientes; também aspectos mais práticos como reflexos de luz em ambientes médicos e teoria de cores complementares.
Foram considerados ainda aspectos históricos e religiosos sobre uso desta cor e das esmeraldas na simbologia médica, além do uso de outras cores por profissionais da saúde, procurando elucidar as razões de a cor verde ter se tornado um importante símbolo da medicina moderna.

PALAVRAS-CHAVE: Verde; Esmeralda; Símbolos; Medicina; Cor


ABSTRACT: The authors present reflections on the green color and its relationship to medicine. Several comments are made for choice of this color like symbol of the medicine: of the mythological origins, where alludes the myth of Perséfone, the loving adventures of Apolo, and yet the god of the medicine, Asclépio. It mentions the psychological aspects that colors can have on doctors and patients; also more practical aspects as reflexes of light in medical environments and theory of complementary colors.
Were considered still, historical and religious aspects on use of this color and of the emeralds in medical symbology, beyond the use of other colors for professionals of health, looking for to elucidate the reasons of the green color has become an important symbol of modern medicine.

KEYWORDS: Green; Emerald; Symbols; Medicine, Color


INTRODUÇÃO
O verde notado em muitos produtos médicos e nas roupas de cirurgiões é sem dúvida a cor que melhor simboliza a medicina. Presente ainda em várias representações da medicina, na analogia da cura com as plantas e a natureza, na pedra que simboliza a profissão e em aspectos religiosos e mitológicos que cercam a prática médica (REZENDE, 2009). O verde é tranqüilizante e confortante, sensações que instintivamente buscamos após passar por um trauma; é a cor da esperança. Como a esmeralda, o verde é um símbolo da saúde e da vida (MANFRED, 2003).

VERDE, ESMERALDAS E MEDICINA


A cor que simboliza a medicina ocidental é o verde. Entre os efeitos psicológicos das cores, parece promover alívio e serenidade, dois estados, sem duvida, desejados por médicos e pacientes.

O verde é uma cor tranqüilizante, confortante e humana. É a cor que buscamos instintivamente quando estamos deprimidos ou após passar por um trauma. Institui um sentimento de alívio, relaxamento, de paz interior, que nos faz sentir equilibrado. É a cor da esperança, da força, da longevidade, da imortalidade universalmente simbolizada pelos ramos verdes (MANFRED, 2003).

Na mitologia, Deméter é uma suprema divindade da terra, deusa da agricultura e dos cereais, era a responsável pela sobrevivência de todos os povos da antiguidade. Os ciclos naturais – semear, brotar e colher – estão relacionados com o mito da filha de Demeter (BARTLETT, 2011).

Perséfone era a beleza personificada e alegrava a humanidade, que vivia então em tempos de fartura. Era um dia majestoso, as ninfas brincavam nos campos floridos, quando a garota viu uma flor maravilhosa, um narciso como ela nunca vira antes e quando se afastou para recolhê-lo; de repente a terra abriu e ela sentiu-se agarrada (STAHEL, 2000). Em vão Perséfone resistiu e gritou... E quando a terra se fechou sobre eles, ninguém mais ouviu as lágrimas e gemidos da jovem. Apenas Deméter escutava um lamento distante, no qual reconhecia ao eco da voz da filha (HAMILTON, 1999).

Deméter percorre o mundo em busca da filha, durante nove dias e nove noites sem nada encontrar. Até que Hélios, deus sol, a quem nada escapa do que ocorre sobre a terra, desfaz o mistério e tenta consolá-la (HAMILTON, 1999). Perséfone havia sido raptada, tornara-se a esposa de Hades e rainha do reino dos mortos!

Deméter, em seu sofrimento, negou à Terra todas as dádivas que lhe concedia. A Terra verdejante e florescente transformou-se em um deserto gelado e sem vida devido ao desaparecimento de Perséfone. A raça humana estava condenada a morrer de fome. Zeus então intermediou um trato com Hades: Perséfone passaria metade do ano com a mãe e outra metade com o marido no mundo inferior (HAMILTON, 1999). Assim, com a chegada de Perséfone aparece na terra a primavera, com os primeiros brotos dos campos e o verde.

Depois de o inverno provar ao homem sua solidão e precariedade, desnudando e gelando a terra que ele habita, esta se reveste de um novo manto verde, com a chegada da primavera, que traz de volta a esperança. O verde é o despertar da vida.

O loureiro arvore de folhas verdes e brilhantes, com as quais eram confeccionadas as coroas dos vencedores dos Jogos atléticos era a planta sagrada do deus Apolo; o curandeiro, o primeiro a ensinar aos homens a arte da cura. Deus da medicina e também semeador de pragas. Este mito conta-nos sobre uma das muitas paixões com desfecho trágico dessa divindade. Segundo Ovídio, Eros, o deus do amor, flechara Apolo com uma seta de amor e, a Dafne, com a seta da indiferença; e por mais que Apolo buscasse o amor de Dafne, ela o repulsava. Perseguida implacavelmente por Apolo e quando este estava próximo de alcançá-la, implora ajuda a seu pai o deus-rio, que a transforma no loureiro. Apolo abraçou-se a planta e declarou então que o loureiro seria sua árvore sagrada (BULFINCH, 2002; STAHEL, 2000).
Asclépio, o deus da medicina, é o filho mais famoso de Apolo. Fruto de mais um amor não correspondido. Uma jovem de rara beleza chamada Corônis após curto relacionamento com o deus, apaixona-se por um simples mortal. Sentindo-se traído quando o corvo lhe conta sobre Corônis e Ísquis, Apolo pede vingança a sua irmã Ártemis, que atinge Corônis com uma de suas flechas mortais para as mulheres. Quando o fogo da pira funerária começava a queimar o corpo da jovem, Apolo resgatou seu filho, que Corônis trazia no ventre e levou-o para ser educado pelo centauro Quíron. Asclépio foi o discípulo ao qual o centauro mais se afeiçoa e, o que mais aprendeu sobre a arte de curar. Quíron era versado no uso de ervas e porções mágicas. Asclépio torna-se capaz de encontrar remédios para todas as doenças; libertava dos tormentos a todos que o procuravam, até mesmo aqueles que estavam à beira da morte (BULFINCH, 2002; HAMILTON, 1999; SOURNIA, 1992).
Contudo, o grande médico que livrava a muitos do Hades, atraiu sobre si a fúria dos deuses. Zeus não permitiria tanto poder a um mortal, que parecia capaz de impedir a morte e matou-o com seu raio fulminante (BULFINCH, 2002). Posteriormente Asclépio teria sido recebido no Olimpo para aplacar a ira de Apolo. O culto a Asclépio disseminou-se, sendo homenageado com inúmeros templos e santuários, que atuavam como locais de cura. A sua imagem permaneceu viva e é um símbolo presente até hoje na cultura ocidental (HAMILTON, 1999; SOURNIA, 1992).
No emblema de Asclépio (símbolo da medicina): A cor verde significa a vida vegetal, a juventude e a saúde. O bastão significa os segredos da vida eterna, poder de ressurreição, o auxílio e suporte da assistência dada pelo médico aos seus pacientes. Sua origem vegetal representa as forças da natureza e as virtudes curativas das plantas (REZENDE, 2009).
Hipócrates, médico grego, considerado o Pai da Medicina, formou no santuário de Asclépio em Cós e assimilou esta tradição médica. Acredita-se que ele mesmo era descendente dos Asclepíades, uma linhagem de sacerdotes-médicos que se dizia derivada da progênie do próprio deus. Vários aspectos da sua doutrina se basearam no folclore religioso que cercava o culto de Asclépio, apesar disto a medicina hipocrática desenvolveu-se em uma linha mais científica e empírica.
À sombra de uma arvore (Platano orientalis), no centro da ilha de Cós, segundo a tradição, Hipócrates reunia-se com seus discípulos e fazia suas preleções ensinando medicina. Este Plátano ficou conhecido como a árvore de Hipócrates. Assinalando o local de nascimento da medicina racional e científica que sucedeu à medicina mágica e sacerdotal dos povos primitivos (REZENDE, 2009).
As folhas verdes do plátano de Hipócrates se renovam a cada primavera, assim como seus herdeiros se renovam a cada geração de médicos, na qual os ideais continuam vivos, a indicar os valores perenes da medicina: a busca da verdade, o respeito à vida, o amor à arte médica, a solidariedade humana, o desejo de servir, a conduta digna, o interesse sincero pelos que sofrem (REZENDE, 2009).

No início da Idade Média a toga dos médicos era verde por usarem plantas medicinais, mas com a epidemia da peste negra (bubônica), os médicos usavam aventais, luvas, máscara e chapéu, porém tudo de cor escura. Estes tons escuros como o preto podia ser um sinal de classe mais elevada e também disfarçava as manchas de sangue e pus que se acumulavam nas roupas. Posteriormente com uso de tons mais claros como cinza, as manchas ganhariam um fator de credibilidade, ou seja, o médico com o avental mais manchado era mais respeitado, tinha mais experiência por haver tratado muitos pacientes. Nada se sabia sobre micróbios e transmissão de doenças (MARGOTTA, 1998; SOURNIA, 1992).
Com o advento das medidas de anti-sepsia e assepsia, com a descoberta dos agentes microbianos, os médicos passaram a usar branco, para demonstrar higiene e limpeza. Na verdade a cor branca é usada por médicos desde a antiga Grécia, quando os sacerdotes do templo de Asclépio se vestiam com roupas (túnicas) brancas para indicar a pureza espiritual. A cor branca em medicina trás o simbolismo da pureza e honradez do ser e atuar como médico (SOURNIA, 1992).

O verde, porém, está sempre presente no mundo da medicina; de acordo com a tradição hindu, a profissão médica é regida pelo planeta mercúrio e a esmeralda é a pedra deste planeta. Também a medicina oriental relaciona a cor verde e a esmeralda ao meridiano do coração, órgão pulsante que mantém a vida. Os Egípcios associavam as esmeraldas à fertilidade a ao renascimento. O imperador romano Júlio Cesar, acreditava que a esmeralda podia ser um fator protetor contra seus ataques de epilepsia. Na idade média as esmeraldas foram utilizadas como antídoto para venenos, para curar feridas, e ainda conta possessões demoníacas. Na tradição alquímica era esta pedra verde, era considerada uma insígnia de Hermes Trismegisto e representativa do conhecimento secreto. Simboliza uma fonte de força e vida nova, além de possuir um caráter de imortalidade (REED, 2013).
Os poderes terapêuticos da esmeralda começam por sua cor verde, que possui propriedades calmantes e é apontada entre todas as cores como a que mais sensibiliza o olhar. A pedra é considerada uma aliada contra doenças. Rejuvenesce, equilibra a cura, estabiliza a personalidade, melhora a meditação e suaviza temores escondidos dentro do homem.
O arcanjo Rafael, conhecido como aquele que foi enviado por Deus para curar, cujo nome significa "Deus cura", novamente confirma que a esmeralda, com sua bela cor verde, é a pedra que simboliza a medicina. É esta pedra que representa o arcanjo Rafael, conhecido como o médico celestial. Por este e outros tantos motivos, os formandos na área de saúde costumam ganhar anéis com essa gema verde (REED, 2013).
Foi no início do século XX, que um cirurgião americano incomodado com o brilho demasiado dos brancos tradicionais no ambiente cirúrgico, que chegavam a reduzir a capacidade de discriminar características anatômicas nos campos operatórios; usando a teoria da cor, desenvolveu um ambiente cirúrgico verde como complemento de cor para o vermelho da hemoglobina. Observou ainda a possibilidade de descansar os olhos, sem competir com luz estranha e brilhos excessivos. Na mesma época a “Cromoterapia” também entrou na cultura hospitalar, com a defesa de idéias sobre a natureza negativa do branco (ausência de cor) e a necessidade do uso de cores positivas e relaxantes como verdes e tons azulados. Assim, o verde tornou-se um importante símbolo do hospital moderno (PANTALONY, 2009).
Em 2010 o Museu de Ciência e Tecnologia do Canadá, em Ottawa, fez uma exposição intitulada: A cor da Medicina, em que expôs artefatos médicos, destacando a utilização da cor verde, buscando resgatar um pouco desta dimensão da história médica.

De Apolo aos nossos dias, o verde e as esmeraldas, são signos intimamente relacionados à medicina, a saúde e a vida.


REFRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTLETT, Sarah. A Bíblia da Mitologia. São Paulo: Pensamento, 2011.
BULFINCH, Thomas. O livro de Ouro da Mitologia (a idade da fábula): Histórias de Deuses e Heróis. Rio de janeiro: Ediouro, 2002.
DE HOLANDA, Ferreira Aurélio Buarque. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
HAMILTON, Edith. (1999), Mitologia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MANFRED, Lurker. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MARGOTTA, Roberto. História Ilustrada da Medicina. São Paulo: Manole 1998.
PANTALONY, David. The colour of medicine. Canadian Medical Association Journal, Ottawa, v.181, n. 6-7, p. 402–403, Sep 2009.
REED, Lawrence Reyes. Esmeralda: Gema de La profesión médica.  GALENUS - Revista para los médicos de Puerto Rico, San Juan, v. 43, n. 7, p.74, Jul 2013.
REZENDE, Joffre Marcondes. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina. São Paulo: Editora Unifesp, 2009.
SOURNIA, Jean-Charles. História da Medicina. Porto Alegre: Instituto Piaget, 1992.
STAHEL, Monica. As Mais Belas Lendas da Mitologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.



Artigo publicado nos ANAIS do CRM-PI – vol. 17- Nº 1 / 2015


Andrade, F J C ; Carvalho F V; Andrade V C B –– Teresina/PI

domingo, 24 de março de 2013

O TENDÃO DE AQUILES: MITO E REALIDADE


       Durante séculos, o nome de um herói mitológico grego vem sendo utilizado em duas expressões universalmente conhecidas: "calcanhar de Aquiles" e "tendão de Aquiles”. Enquanto a primeira é empregada em um contexto cultural mais amplo para descrever algum ponto físico ou psicológico frágil, a segunda representa um epônimo anatômico para um tendão que é, atualmente, discriminado na Nomina Anatomica como tendão do calcâneo. As expressões fazem referência à versão mais conhecida sobre a morte do guerreiro: Aquiles, com o corpo invulnerável exceto no tornozelo, teria morrido em decorrência de um ferimento que o atingiu exatamente nesse ponto. No presente trabalho, a mitologia de Aquiles e a anatomia do tendão do calcâneo são apresentas. Além disso, as possíveis causas da morte do guerreiro são discutidas resumidamente.

       Segundo Brandão (BRANDÃO, 1991a), o nome Aquiles (Akhilleús) é provavelmente pré-helênico e sua etimologia, embora desconhecida, está relacionada desde a antiguidade com ákhos (dor, aflição). Significaria, portanto, “o doloroso, o sofredor”. Aquiles é a figura central da Ilíada, que narra os acontecimentos ocorridos durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia. “O mito de Aquiles é um dos mais ricos, antigos e complexos da antiguidade clássica. Graças à Ilíada, em que o filho de Tétis é citado duzentas e noventa eduas vezes, se popularizaram suas gestas. Poetas posteriores a Homero e o inconsciente popular apoderaram-se da personagem e multiplicaram-lhe as variantes do mito, a posto de se formar um autêntico ciclo de Aquiles, carregado de incidentes e episódios nem sempre coerentes” [id. 1991a]. As origens mitológicas da guerra de Tróia são remotas, resultando da disputa entre Zeus e Posídon pela a nereida Tétis. Um oráculo - para alguns, feito por Prometeu - vaticinara que o filho gerado por Tétis se tornaria mais poderoso que o pai e Zeus decidiu arranjar-lhe um marido mortal, Peleu. O casamento foi descrito muito depois pelo poeta latino Caio Valério Catulo (84 - 54 a.C) no poema LXIV, Bodas de Tétis e Peleu [id.,1991b.]: todos os imortais foram convidados e doaram presentes magníficos. Éris, a Discórdia, compareceu mesmo sem ser convidada e lançou, diante de Hera, Afrodite e Atena, a maçã de ouro, o famoso “pomo da discórdia”, com a maliciosa e provocativa inscrição: "a mais bela", desencadeando uma obstinada disputa entre as três deusas. Zeus incumbiu Hermes de conduzí-las ao monte Ida, onde seriam julgadas por Páris, cuja decisão, nas palavras de Homero, "lançou no Hades muitas almas valorosas de heróis" (Il. 1.3-4).
       Há diferentes versões para a morte de Aquiles. Peleu e Tétis já tinham gerado seis filhos, mortos quando Tétis, na tentativa de torná-los imortais, ungiu-os com ambrósia e os colocou sobre o fogo. Quando Aquiles nasceu, Tétis teria buscado fazê-lo imortal mergulhando-o no rio Estige; deixou-o, no entanto, vulnerável na parte do corpo pelo qual o segurava, seu calcanhar direito. Peleu entregou o filho ao centauro Quíron para que o educasse. Quando completou doze anos, o centauro iniciou seu adestramento na caça, equitação, música e medicina (id., 1991a).
       A morte de Aquiles não é descrita na Ilíada nem a alusão à invulnerabilidade de Aquiles se encontra em Homero. De fato, no canto 21 da Ilíada Aquiles é ferido por Asteropeu, que arremessa duas lanças ao mesmo tempo, uma das quais atinge o cotovelo de Aquiles, "tirando um jorro de sangue". Fosse invulnerável, ele não precisaria da armadura encomendada a Vulcano por Tétis. Esta havia recomendado fosse confiada ao sobrevivente mais digno de usá-la após a morte do filho. Os únicos pretendentes foram Ulisses e Ajax, sendo aquele o escolhido, “ficando a sabedoria, assim, acima da bravura e levando Ajax ao suicídio” (BULFINCH, 2000). Deste modo se entrelaçam “os dois fios das estórias contadas pela Ilíada (a glória de Aquiles) e pela Odisséia (o retorno de Ulisses). A morte natural de um Ulisses já velho, opulento e rodeado pelo seu povo então feliz constituirá um contraponto à morte trágica de um Aquiles jovem, em terra estrangeira, afastado dos seus familiares e de seu povo” (ASSUNÇÃO, 2003). As diferentes versões da morte de Aquiles são, portanto, posteriores a Homero. A mais difundida relata que ele morreu em combate, ferido no calcanhar vulnerável por uma flecha atirada por Páris e guiada por Apolo. Páris, nesse ato, vingaria a morte de seu irmão Heitor e, simultaneamente, a morte de Tenes, filho de Apolo. Em certas versões do mito, o próprio deus Apolo teria disparado a seta, e não Páris, considerado por demais covarde (BRANDÃO, 1991a).
       Os tendões eram conhecidos na medicina hipocrática. Lê-se na obra Sobre o Uso de Líquidos: “os ossos, os dentes, os tendões têm no frio um inimigo e no calor um amigo, porque é dessas partes que se originam os espasmos, o tétano, os calafrios febris, que o frio induz e o calor remove” (MAJNO, 1975). De acordo com KLENERMAN (2007), o termo tendão de Aquiles foi registrado pela primeira vez em 1699 por pelo anatomista belga Philip Verheyen (1648-1711), em lugar de tendo magnus de Hipócrates de autores mais antigos ou chorda hippocatrica de autores posteriores. Em sua obra Humani Corporis Anatomia; ele descreveu o tendão como era vulgarmente conhecido: "quae vulgo dicitur chorda Achillis" (Philip Verheyen, 2011). O termo foi adotado pela primeira vez em sua forma original francesa pelo cirurgião Jean-Louis Petit (1674-1750) em 1705 (MUSIL et al., 2011).
       O tendão do calcâneo, com cerca de 15 cm de comprimento e formado pelas aponeuroses do músculos gastrocnêmico e sóleo, é o maior e o mais poderoso tendão do corpo (MOORE & DALLEY, 2007a). Na sua decida até a tuberosidade do calcâneo espiralase em 90º e as fibras do gastrocnêmico se dispõem lateralmente, enquanto as do sóleo fixamse medialmente. Tal configuração, acredita-se, confere uma vantagem mecânica importante para a capacidade de o tendão absorver energia e se retrair (id., 2007a). O tendão do calcâneo é uma marca registrada do bípede humano, não ocorrendo em grandes primatas, e sua presença pode estar relacionada ao maior comprimento relativo do dos ossos do tarso no homem (KLENERMAN, 2007). Há cerca de dois milhões de anos, um conjunto diversificado de recursos, entre os quais se inclui o desenvolvimento do tendão do calcâneo, possibilitou a locomoção bipedal e a marcha de resistência, uma peculiaridade do gênero Homo (BRAMBLE & LIEBERMAN, 2004). Essas vantagens evolutivas podem ter sido fundamentais para a sobrevivência da espécie (RAICHLEN et al., 2011).
       Abroise Paré (1510-1590), o famoso cirurgião francês, foi o primeiro a descrever, em 1665, um caso de ruptura do tendão. Em 1724, o já referido Jean-Louis Petit relatou dois casos, sendo um bilateral. John Hunter (1728-1796) descreveu a ruptura de seu próprio tendão; na autópsia, observou-se calcificação no local da lesão. Foi o primeiro a estudar experimentalmente em cães a ruptura do tendão. Descrições de tenotomia aparecem no tratado "Sobre a cirurgia", do cirurgião grego Antyllus (século II dC), que realizou o procedimento para tratamento da anquilose de tornozelo. Frederick Louis Stromeyer (1804-1876) foi o pioneiro, nos tempos modernos, a utilizar a tenotomia para o tratamento do pé torto. “Lesões, tanto traumáticas como por uso excessivo do tendão de Aquiles já se tornaram relativamente comuns, e não é raro encontrar cirurgiões que, em sua carreira profissional, já operaram centenas de pacientes - e tudo isso a partir de um guerreiro mitológico grego” (KLENERMAN,2007).
       Em 1873, fazendo escavações no sítio arqueológico do Hissarlik, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann (1822-1890) encontrou várias cidades construídas em diferentes níveis e que ele considerou como a Tróia homérica. Apesar de o sítio arqueológico estar localizado na Anatólia, que corresponde hoje à porção asiática da Turquia, a idéia de que os níveis VI/VII correspondem a Tróia tornou-se firmemente estabelecida (KORFMAN, 2004). Vestígios arqueológicos levam a crer que houve vários conflitos armados em torno da cidade no final da Idade do Bronze, não sendo possível afirmar se todos ou apenas alguns destes conflitos foram registrados mais tarde na chamada “guerra de Tróia", ou se entre eles havia um especialmente memorável, uma única "guerra de Tróia". De qualquer forma, as ruínas de Tróia ainda deviam ser impressionantes no final do século VIII a.C., período em que, segundo se acredita, Homero compôs sua obra. Assim, não há nada no registro arqueológico que contradiga a afirmação de que Tróia e a paisagem circundante formaram o cenário para a Ilíada de Homero (KORFMANN, 2004). Aliás, o título da obra deriva do nome grego para Tróia, Ílion. Não se pode descartar, portanto, a hipótese de que tenha existido de fato um guerreiro, posteriormente mitificado na figura de Aquiles. Levando-se em consideração essa provável correspondência entre o mito e a realidade, uma pergunta se impõe: como poderia ter ocorrido a morte do guerreiro em decorrência do ferimento na região calcânea? LEE & JACOBS (2002) levantam várias hipóteses, que são ponderadas brevemente a seguir.
       Infecciosa: a ponta da seta poderia estar contaminada por bactérias como Clostridium perfringens, Yersenia pestis ou similares; a infecção da ferida e o desenvolvimento de gangrena ou osteomielite poderia ter sido fatal. Em qualquer dessas circunstâncias o tratamento era impraticável, pois o conceito de infecção de feridas era desconhecido dos gregos, só vindo ser estabelecido em 1867 por Joseph Lister (MAJNO & JORIS, 2004). A infecção pelo Clostridium tetani seria outra ocorrência possível. De fato, há relatos hipocráticos contendo descrições clínicas da doença (MAJNO, 1975), mas nas fontes mitológicas nada há que sugira ter Aquiles apresentado uma sintomatologia atribuível à infecção tetânica. De qualquer forma, é importante lembrar que, mesmo nos dias atuais, mais de um século após o desenvolvimento da vacina antitetânica (1924), não houve uma diminuição significativa da letalidade por tétano acidental (GOUVEIA et. al., 2009).
       Tóxica: a seta estaria envenenada; de fato, na Rapsódia I da Odisséia, há menção a uma viagem de Ulisses para Éfira “aonde fora, numa ligeira nau, em busca de veneno homicida para temperar o bronze de suas setas” (FIGUERÊDO-SILVA et al. 2010).
       Metabólica: se Aquiles sofresse de hipertireoidismo, - o que não parece ter sido o caso - talvez a dor e o estresse tenham desencadeado uma “tempestade tireoidiana”, com manifestações extremas de descompensação funcional e com um quadro clínico complexo.
       Congênita: embora nada indique isso, talvez Aquiles fosse hemofílico e uma lesão da artéria tibial posterior resultaria numa hemorragia fatal. De fato é improvável que uma hemorragia de grande porte tenha ocorrido por uma lesão exclusiva do tendão, uma vez que o mesmo é relativamente pouco vascularizado, sobretudo em sua porção média (DORAL et al., 2010). No entanto, a hemofilia não seria uma condição imprescindível. A artéria tibial posterior, o maior e o mais direto ramo terminal da artéria poplítea, pode ser facilmente lesada em ferimentos superficiais. Em bases puramente anatômicas, uma lesão da artéria e veia tibiais seria a causa mais verossímil da morte de Aquiles, ainda mais porque não havia tratamento eficaz para deter as hemorragias e a remoção de flechas sempre representou um problema para os feridos (KARGER et al., 2001).
       Imunológica: a seta, feita com uma infinidade de materiais, poderia ter desencadeado um episódio fatal de anafilaxia, desde que Aquiles fosse alérgico a qualquer um dos componentes.
       Traumática: uma embolia pulmonar após o ferimento poderia ter ocorrido. Finalmente, LEE & JACOBS (2002) mencionam duas possibilidades ainda mais ambíguas ou controvertidas. Psiquiátrica: Aquiles, após ter provado ser um grande guerreiro, encontrase repentinamente mutilado; sofre, então, um grave ataque de depressão e só encontra a paz pondo fim à própria vida. Evolutiva: incapaz de se mover depois de ter sido ferido, Aquiles torna-se um organismo "inadaptado", tendo sido morto no campo de batalha. É uma tentativa inapta de se aplicar o darwinismo. Para uma análise pertinente e aprofundada dos aspectos simbólicos da morte de Aquiles deve ser consultado o belo trabalho de ASSUNÇÃO (2003).
       Apesar, ou talvez em decorrência de sua importância em termos evolutivos, o tendão do calcâneo é propenso a um amplo espectro de lesões (LONGO et al., 2009).
       No mito de Aquiles, como em toda a obra homérica, se entrelaçam fatos históricos e elementos ficcionais, mas há indicações convincentes de que houve uma antiga Tróia e uma ou mais guerras de Tróia. Talvez um esplêndido guerreiro da época tenha sido mitificado na figura de Aquiles, cujo nome, apesar da distância dos séculos e das brumas da mitologia, continua famoso, tal como Homero predissera na Ilíada.




Bibliografia
ASSUNÇÃO, T.R. Ulisses e Aquiles repensando a morte (Odisséia XI, 478-491). Kriterion; vol. 44, p. 100-109, 2003.
BRAMBLE, D.M.; LIEBERMAN, D.E. Endurance running and the evolution of Homo. Nature, vol. 432, n.7015, p.:345-52, 2004.
BRANDÃO, J. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1991. v. 1, p. 97-104. _____.op. cit 1991b. v. 2, p. 438-439.
BULFINCH, T. O Livro de Ouro da Mitologia. Histórias de Deuses e Heróis. Trad. Jardim Jr D. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 272.
FIGUERÊDO-SILVA, J. et al. . Breve História do Tratamento das Feridas: I: A Medicina na Ilíada e na Odisséia. Anais do CRM-PI, vol. 12, p. 90-101, 2010.
GOUVEIA, P.A.C. et al. Tendência temporal do tétano acidental no período de 1981 a 2004 em Pernambuco com avaliação do impacto da assistência em unidade de terapia intensiva sobre a letalidade. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.42, n.1, p. 54-57, 2009.
HOMERO. Odisséia. Introdução e notas de Médéric Dufour e Jean Raison; tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Abril Cultural; 1979. p. 215.
KARGER, B. et al. Arrow wounds: major stimulus in the history of surgery. World J Surg, vol. 25, n. 12, p. 1550-1555, 2001.
KLENERMAN, L. The History of the Tendo Achillis and its Rupture. In: MAFFULY, N.; ALMEKINDERS, L.C. (Eds). The Achilles Tendon. London: Spring-Verlag Limited, 2007. p. 1-4.
KORFMANN, M. Was there a Trojan War? Archaeology, 57: 2004. Disponível em: http://www.archaeology.org/0405/etc/troy.html. Acesso: 10 set. 2011.
LEE C.C.; JACOBS, R.L. Achilles (The Man, the Myth, the Tendon). Iowa Orthop J. vol. 22, p. 108-109, 2002.
LONGO, U.G.; RONGA M, MAFFULLI N. Achilles tendinopathy. Sports Med Arthrosc. vol. 17, n., p.:112-26, 2009.
MAJNO, G. The Iatrós. In:______The Healing Hand: Man and Wound in the Ancient World. Cambridge, MA: Harvard University Press; 1975. p. 141-206.
MAJNO, G; JORIS. I. Introduction to Inflammation. In: ______. Cells, Tissues, and Disease: Principles of General Pathology. Oxford: Oxford University Press. 2nd ed. 2004; p. 307-332.
MOORE, K.L.; DALLEY, A.F. Anatomia Orientada para a Clínica. 5a Ed. Trad. ARAÚJO C.L.C. Rio de Janeiro: Guanabara, 2007a. p 597. _______.op. cit., 2006b, p 604-605.
MUSIL V. et al. Achilles tendon: the 305th anniversary of the French priority on the introduction of the famous anatomical eponym. Surg Radiol Anat. vol.33, n. 5, p.421-427, 2011
O'BRIEN, M. The anatomy of the Achilles tendon. Foot Ankle Clin, vol.10, p.225-238, 2005.
PHILIP VERHEYEN. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Flórida: Wikimedia Foundation, 2011. Disponível em: http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Philip_Verheyen&oldid=415882527>. Acesso: 10 abr. 2011.
RAICHLEN, D.A.; ARMSTRONG, H.; LIEBERMAN, D.E. Calcaneus length determines running economy: Implications for endurance running performance in modern humans and Neandertals. J Hum Evol.,60: 299-308, 2011.
* Trabalho apresentado no I Congresso Piauiense de História da Medicina – Teresina/PI - 2013

Figuerêdo-Silva J; Gonçalves BM; Carvalho FV; Fonseca-Junior GC;
Oliveira LM; Bezerra RT – Teresina/PI

sábado, 21 de janeiro de 2012

MEDICINA E MITOLOGIA NA GUERRA DE TROIA


A prática da medicina esteve ligada aos mitos desde a idade da pedra, alcançando seu apogeu durante a idade do bronze e a antiga idade do ferro. Embora a Grécia antiga seja o ponto de partida para cultura científica ocidental, a medicina grega no inicio apresentava uma mistura de concepções mágicas e religiosas. A religião grega aceitava muitos deuses que participavam da vida diária, partilhavam com os homens o amor e a luta pelo poder e estavam presentes na guerra. Vários deles de alguma forma estavam ligados à produção e à cura de doenças, a não ser nos casos de ferimentos de batalha ou acidentes onde a causa do mal era evidente a doença era atribuída à intervenção divina.

Mesmo Hipócrates, o pai da medicina, que marcou uma separação entre o mítico e o racional, em seu juramento invoca os deuses da medicina. Desta forma os métodos da medicina mítica buscavam agradar ou acalmar aos deuses com preces e sacrifícios. Nos textos gregos clássicos, sobretudo na obra de Homero e Hesíodo, encontramos vários relatos que demonstram a prática da medicina associada ao mito. As flechas de Apolo eram capazes de causar a morte súbita em homens e as de Ártemis em mulheres como é contado na lenda de Nióbe por Homero, Hesíodo e outros. O mito de Pandora, contado por Hesíodo, coloca as doenças que assolam a humanidade, como um desejo de Zeus.

Uma passagem bastante emblemática de enfermidade enviada como castigo divino aparece na obra Ilíada de Homero e narra a peste que se abateu sobre os exércitos gregos durante o cerco de Tróia. No início houve a morte dos animais e, a seguir, dos homens. Neste episódio o diagnóstico foi feito consultando um adivinho. A causa da doença era a ira de Apolo que motivado por um tratamento desrespeitoso a seus sacerdotes, lançou suas setas sobre o acampamento grego. Desse modo o tratamento consistiu em aplacar sua cólera por meio de sacrifícios, hinos de louvor e devolução de sua sacerdotisa, raptada pelos gregos. Quando Apolo se satisfez retirou a praga. Há ainda na Ilíada, alusão à existência de Asclépio, um médico de extraordinário saber que teria aprendido sua arte com Quíron, o centauro educador de heróis e exímio conhecedor de ervas medicinais.


Andrade, F J C; Carvalho, A C R e Carvalho, T T A –– Teresina/PI